Sunday, October 30, 2005
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Megabytes, SUV, Videochamada, GPS, ADSL, Light, Axe, Bluetooth.. Perdidos entre siglas, abreviaturas, e produtos para todos os gostos, vagueamos tristemente em busca de uma falsa felicidade. Convencem-nos de que seremos mais felizes se bebermos aquela cerveja, usarmos aquele desodorizante, conduzirmos aquele carro, falarmos naquele telemóvel. Convecem-nos de que aquele perfume cheira bem melhor e que só por isso, portanto o sucesso com o sexo oposto está garantido, que aquele shampô anti caspa é que nos vai levar ao topo da carreira, que aquela cerveja nos vai fazer mais bonitos. E nós vamos na corrente, conscientes de que a felicidade não estará de certo ali, mas para quê contrariar? Convencem-nos que somos mais felizes. Tentámo-nos convencer que somos mais felizes, pensamos que estamos convencidos de que somos mais felizes. E então ansiamos. E compramos. E utilizamos. E gozamos. E cansamo-nos. E pomos de lado. Bolas! Afinal, estou na mesma. Nem um bocadinho mais feliz...
E então percebemos que não é um estúpido dum telemóvel uma sensaborona cerveja, um lacrimogénico shampô que fazem realmente diferença, nem tão pouco nos vão fazer mais felizes. Percebemos, mas não assumimos. Temos consciência (convem!) de que atingir a felicidade é bem mais difícil. Mas sentimo-nos bem em nos sentirmos enganados. Para esconder aquilo que sabemos ser verdade: isso a que chamam felicidade, não passam de breves momentos de. Mas evitámos pensar nisso. A verdade é sempre cruel. E eis que aparece outra necessidade fútil de consumir, e o ciclo recomeça.
Até chegarmos à ultima oportunidade para sermos felizes, a morte. E aí a humanidade divide-se em dois grupos:
aqueles que assumem o fim da busca pela felicidade, e portanto, não a frustração de não a terem alcançado mas sim o facto de terem tentado;
e aqueles que não enxergam isso e que gastam milhares de euros num caixao, que vai ser o subsidio de alimentação de muitos condóminos subterrâneos. O consumismo no seu pior.
Friday, October 28, 2005
O primeiro dia

Porque cada dia que começa, é menos um dia na contagem decrescente para essa única certeza que é a morte, este blog só poderia nascer com um poema do Sérgio Godinho, O Primeiro Dia.
O Primeiro Dia
A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Depois vem cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

