Tuesday, November 29, 2005
Monday, November 28, 2005
Lágrima de ___________
Em jeito de comemoração antecipada do dia da Luta Contra a Sida, e porque pouco nos resta para a combater senão prevenir e respeitar quem não o conseguiu, aqui fica um breve poema de António Gedeão. Chama-se Lágrima de Preta, mas podia ser de qualquer outra pessoa. Fica a sugestão de preencher conforme entender.
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhai-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
António Gedeão
Saturday, November 26, 2005
Rifão Quotidiano
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Thursday, November 24, 2005
É tão dificil encontrar pessoas assim... bonitas
Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido
percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
sem nada te dizer ficaste ali comigo
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
falavas de projectos e futuro
de coisas banais frivolidades
mas quando me sorriste parou tudo
problemas do mundo enormidades
senti que um rio parava e o nevoeiro
vestia nos teus dedos capa e espada
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse no fundo preciso
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse preciso dizer nada
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim pessoasPedro Barroso
Tuesday, November 22, 2005
Publicidade enganosa
Nascemos condenados a ultrapassar obstáculos. Alguns de facto, existem, outros não passam de meras imposições sociais. A balança pende para este último. O primeiro obstáculo é, naturalmentem, nascer. Aguentar contraçcões durante o parto (sim, presumo que não seja só a mãe a senti-las. não deve ser nada fácil para o feto), preparar-se para a viagem, sombria e traiçoeira e, se tudo correr bem, estará ultrapassado o primeiro obstáculo. O pobre feto não tem, espero, memória deste primeiro "trauma", mas tal não é também necessário. Enfrentará muitos outros obstáculos pela vida fora, a maior parte deles, recorde-se, meras imposições sociais. Seria fastidioso, enumerá-los todos. Além disso a minha experiencia inexistente como pai, daria origem a muitas imprecisões em termos temporais. Limito-me a registar alguns acontecimentos:a primeira palavra, o primeiro sorriso, o primeiro passo, o primeiro dente, o primeiro dia no infantário etc etc. O que interessa é acontecer alguma coisa que se veja, que se note, que impressione, que faça inveja aos outros. Ninguém regista a primeira vez que uma criança viu um gato pois não? ou um cão? ou uma melga? ou um piolho? Não. Isto não fica bem. Não há vaidade e como tal, para quê registar?
A criança entra depois para a escola primária. A criança sai da escola primária. A criança entra no 2.º ciclo, no 3º ciclo, no secundário. A criança entra na faculdade. A criança sai da faculdade. A criança agora tem de comprar casa, carro e roupa lavada. A criança tem de casar. A criança tem de ter filhos. A criança tem de cuidar dos filhos. A criança tem de por os filhos na faculdade para serem alguém na vida. A criança envelhece. A criança morre.
Vistas assim as coisas, a vida não parece mais que uma corrida desenfreada de obstáculos. Por mim, tento resistir a essa corrente. A vida, tal como nos oferecem vem estampada com todas estas etapas (e mais algumas!) no papel de embrulho. Esqueceram foi de nos dizer que por debaixo desse papel de embrulho está escrito Frágil. Edição limitada e que o realmente interessa no pacote são as pequenas bolas de esferovite (aquelas bolas de plástico cheias de ar, e que não resisto a rebentar, também resultam) que suportam os tombos, as mágoas, as agressões, as desilusões a que esse presente, que nos foi dado à nascença chamado vida está constantemente sujeito.
Nascemos condenados a ultrapassar obstáculos. Excepto a morte.
Liberdade rima com felicidade
A frase não é da minha autoria. Mas também que interessa de quem é? Encontrei-a, por entre o lixo cibernético que abunda pela internet, e para o qual não parece haver peneira suficiente que o separe do que realmente importa, do que realmente interessa, do que realmente se aproveita. A frase aqui fica. Já a vi inúmeras vezes pela Internet fora, mas que interessa isso? Não perde validade com o tempo, não perde validade com o excesso de citações.
A frase não da minha autoria, mas adoptei-a. Ainda não a consegui seguir fielmente, não é fácil não ser possessivo, não é fácil não querer ter sempre e sempre aqueles de quem se gosta por perto. Mas estou a tentar... talvez seja mesmo isto o segredo da felicidade: a liberdade.
Amo a liberdade. Deixo, por isso, todos os que amo livres. Se voltarem, foi porque me pertencem. Senão, foi porque nunca os possuí.
Thursday, November 17, 2005
Exit
Wake,
from your sleep,
the drying of your tears,
Today,
We escape, we escape.
Pack
and get dressed

before your father hears us,
before,
all hell breaks loose.
Breathe, keep breathing,
Don't lose your nerve.
Breathe, keep breathing,
I can't do this alone.
Sing,
us a song,
a song to keep us warm,
there's such a chill, such a chill.
And you can laugh a spineless laugh,
we hope your rules and wisdom choke you.
And now we are one
in everlasting peace...
Radiohead, OK Computer, Exit Music (For A Film)
Tuesday, November 15, 2005
Monday, November 14, 2005
Probabilidades...
Agostinho da Silva costumava dizer que não há defeitos nem qualidades. Apenas características. É uma visão pouco romântica, é certo, mas talvez acertada. Que outra forma teria para explicar que adore uma mesma característica numa determinada pessoa, e seja insuportável noutra criatura? Mudará de pessoa para pessoa? Uma qualidade em alguém transformar-se-á em defeito noutro alguém? Penso que não. Para responder a esta questão, inventei a minha própria teoria, naturalmente bem mais romântica e afectuosa: como, de certeza, não vamos encontrar a pessoa perfeita (isso da perfeição é incompativel com a natureza humana) a unica solução é então encontrar alguém com caracteristicas (leia-se, defeitos!) que nos dê prazer aturar. E assim sendo, poderá acontecer que não vejamos nem qualidades nem defeitos naqueles que amamos, mas sim e apenas características. A minha mente teimosamente idealista diz-me que isso é possível, mas ainda não tenho a certeza.
Esta prosa não é, contudo, para falar dos defeitos (características? ainda não estou muito convencido) de quem gostamos realmente de verdade. Até porque isso está implícito: gostar de alguém de verdade implica gostar de tudo.... mesmo dos defeitos. E portanto seria preciso outra prosa só para falar do que é isso de gostar de verdade. É preciso acrescentar o de verdade? Gostar de alguém não deverá ser sempre de verdade? Talvez um dia...
Esta prosa é para falar dos defeitos em pessoas que não estamos minimamente dispostos a aturar e que (como já terá percebido quem está a ler, se já entrou no espírito) nunca se tornarão qualidades. A questão das caracteristicas ainda não me convenceu. Principalmente quando existem características como a hipocrisia. Continuo a achar que esta é mesmo um defeito. Não tolero, portanto, a hipocrisia. Será rídiculo categorizar os defeitos, mas não resisto: este é inaturável (uma palavra nova?). Ao contrário dos outros defeitos (verborreia, ostentação -hmmm, este também está "bem" classificado, antipatia, cinismo... a lista é extensa) que se assumem quase imediatamente (nunca dei por mim a pensar se aquele é simpático ou antipático, se fala muito ou se fala pouco), a hipocrisia é calculista, fria, falsa e mascarada, como se ainda não bastasse, de uma simpatia e até bondade quase angelicais. Mas o que me enfurece, ainda que eu tenha escrito que não a tolero, é ter a consciência de que tal é impossível. Não posso ter o poder de tolerar algo que não sei se é real. Não posso decidir quanto à tolerancia sobre algo que só virei a concluir que não deveria ter tolerado, depois de já o ter feito. E é esse absoluto descontrolo sobre o que realmente as pessoas são e pensam que me deixa desconfortável em relação à hipocrisia.
Não há, infelizmente, cura nem antidoto para pessoas hipócritas nem qualquer sinalética para esse tipo de gente. Resta-me a experiencia de já ter conhecido umas poucas pelo caminho, e principalmente a convicção, ainda que os pessimistas afirmem o contrário, de que gente hipócrita continua a ser uma minoria. Resume-se tudo, portanto, a uma questão de probabilidades.
Monday, November 07, 2005
Hearts and thoughts they fade... fade away
(Mais) Uma das músicas que me faz ver um pouco de luz, quando só parece haver trevas, um sorriso, no meio do cinzentismo, uma mão que me puxa quando todos me querem empurrar. Enfim, uma música que me levanta do chão e me dá asas... Porque tal como dizia David Mourão Ferreira:
Nós temos cinco sentidos. São dois pares e meio de asas.
Don't fade awayDon't Fade Away, Dead Can Dance, 1994
My brown-eyed girl
Come walk with me
I'll fill your heart with joy
And we'll dance through our isolation
Seeking solace in the wisdom we bestow
Turning thoughts to the here and everafter
Consuming fears in our fiery halos
Say what you mean
Mean what you say
I've heard that innocence
Has led us all astray
But don't let them make you and break you
The world is filled with their broken empty dreams
Silence is their only virtue
Locked away inside their silent screams
But for now
Let us dance away
This starry night
Filled with the glow of fiery stars
And with the dawn
Our sun will rise
Bringing a symphony of bird cries
Don't bring me down now
Let me stay here for awhile
You know life's too short
Let me bathe here in your smile
I'm transcending
The fall from the garden
Goodnight
Sunday, November 06, 2005
Post-mortem
Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
Sérgio Godinho e Jorge Palma, Mudemos de assunto in O Irmão do Meio, 2004
Saturday, November 05, 2005
No Surprises...
A heart that's full up like a landfill,
a job that slowly kills you,
bruises that won't heal.
You look so tired-unhappy,
bring down the government,
they don't, they don't speak for us.
I'll take a quiet life,
a handshake of carbon monoxide,
with no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
Silent silence.
This is my final fit,
my final bellyache.
Radiohead - No Surprises - OK Computer, 1997
Friday, November 04, 2005
A propósito...
A lista de coisas que me enfurece é, naturalmente, extensa. Desconfio que todos tenham uma lista semelhante. O que faz realmente diferença é o conteudo dessa lista. Aquelas coisas que ouço, ou vejo, para as as quais só me ocorre um pensamento Havia tanto para dizer.... se fosse hoje o meu ultimo dia à superficie da Terra. São, portanto, coisas que me irritam visceralmente. É claro que uma coisa que me enfurece, pode ser extremamente prazeirenta para outra criatura. Não é, por isso, possível fazer comparações. Cabe a cada um saber o que faz parte dessa lista. Eu vou sabendo... e convém saber...
Hoje lembrei-me de uma, ou melhor, lembraram. Sim, porque não é nada conveniente estar sempre a lembrar-me desta lista. A minha sanidade mental depende em grande parte de me lembrar de me esquecer desta lista. Nunca entendi complemento "de propósito" que muita gente (gentinha?) para aí coloca orgulhosamente no final de uma pergunta, ainda por cima, retórica. Haverá alguma coisa que não se faça de propósito? Vou trabalhar sem ser de propósito? Vou ao cinema sem ser de propósito? Alimento-me sem ser de propósito? A menos que o carro tenha vontade propria, ou que o calçado decida por mim onde vou e o tamanho do passo, ou o garfo levite em direcção à minha boca no momento e no local certo, não vou a lado nenhum, nem faço o que quer que seja sem ser de propósito, ou não seria isso que me distingue de uma enfadonha couve de bruxelas, isto é, pensamento e consciencia de mim e portanto a capacidade de decidir e agir, e responsabilizar-me por tal.
Pode ser que um dia arranje coragem para que quando me perguntarem: vais a tal sítio de propósito? Eu responda com outra pergunta: E tu onde foste passar férias? A resposta se for lusitana, poderá ser qualquer coisa como Benidorm, à qual acrescentarei: O quê? Foste a Benidorm passar férias de propósito?





