Saturday, April 29, 2006

Cansaço...











O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Sunday, April 23, 2006

Whispers














You're beautiful so silently
It lies beneath a shade of blue
It struck me so violently
When I looked at you

But others pass, they never pause,
To feel that magic in your hand
To me you're like a wild rose
They never understand why

I cried for you
When the sky cried for you
And when you went
I became a hopeless drifter
But this life was not for you
Though I learned from you,
That beauty need only be a whisper


I'll cross the sea for a different world,
With your treasure, a secret for me to hold
In many years they may forget
This love of ours or that we met,
They may not know
how much you meant to me.

Without you now I see,
How fragile the world can be
And I know you've gone away
But in my heart you'll always stay.

I cried for you
And the sky cried for you,
And when you went
I became a hopeless drifter.
But this life was not for you,
Though I learned from you,
That beauty need only be a whisper
That beauty need only be a whisper...


I cried for you, Katie Melua

Friday, April 21, 2006

Just like heaven














Show me how you do that trick
The one that makes me scream, she said
The one that makes me laugh, she said
And threw her arms around my neck
Show me how you do it
And I promise you, I promise that
I'll run away with you
I'll run away with you...'

Spinning on that dizzy edge
I kissed her face and kissed her head
And dreamed of all the different ways
I had to make her glow
Why are you so far away?' she said
Why won't you ever know that I'm in love with you,
That I'm in love with you?

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Strange as angels
Dancing in the deepest oceans
Twisting in the water,

you're just like a dream
Just like a dream

Daylight licked me into shape
I must have been asleep for days
And moving lips to breathe her name
I opened up my eyes
I found myself alone
Alone
Alone above a raging sea
That stole the only girl I loved
And drowned her deep inside of me

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Just like heaven...


Just Like Heaven, The Cure

Monday, April 17, 2006

Chega...

Chega de tentar dissimular
E disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu não posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor e
Entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
Que tudo aquilo que é viver,
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã

Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então eu
Chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando
Feito louco, alucinado e criança
Sentindo o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar
Explode coração!...

Explode Coração, Maria Bethania

A aventura do coração

"É mentira que nada desaparece e tudo se transforma. As pessoas desaparecem. As coisas desaparecem. As ideias desaparecem. E o resto? O resto, que é que interessa? Daquilo em que se transformam as pessoas e as coisas e as ideias que desaparecem nem vale a pena falar. Aquelas que sobrevivem, que de algum modo continuam, vivem, reaparecem transformadas numa sombra do que eram. Não são as mesmas. São outras. São piores.
O que acontece é triste: vamo-nos habituando à ausência das pessoas e das coisas que desaparecem. Mais triste ainda: desabituamo-nos de encontrá-las. Tudo isto é triste porque é uma coisa que o coração não é capaz de entender.
Mesmo quando sabemos que uma coisa vai acabar mal, ou não vai chegar a acontecer, o coração acredita, o coração espera, o coração engana.
O coração é estúpido. Não há uma única coisa boa que se possa dizer acerca dele. Torna-nos bons, mas é uma bondade que nos faz entristecer. Quando nos põe felizes é por um ou dois momentos. E nunca se conheceu alegria que parecesse verdadeira. A alegria nunca é constante, nunca é segura. Desprende-se do dia a dia. Não nos deixa neste mundo. A alegria é um estado à parte, que ninguém consegue tornar real. É como um filme em que se está. Mesmo para lembrar a alegria é difícil. Há qualquer coisa na alegria que não cola.
Ser bom é estar aberto à infelicidade. Sendo bom, quase tudo o que vemos nos dá pena. O mundo é um acaso injusto, onde o que dá mais nas vistas é a falta que as pessoas sentem. Cada alma, cada corpo mostra a falta que lhe faz. Está escrita. É mais triste quando a condição de cada um é tão clara que se vê nitidamente, no rosto e na roupa, a pessoa ou coisa que mais falta lhe faz. Somos todos transparentes. Por baixo vê-se aquilo que não temos.
Como num pobre se vê a falta de dinheiro, como num faminto a fala de comida, como num doente a falta de saúde, também nas outras pessoas se vê, na maneira como se movem e como falam, aquilo que querem e não têm. Quando se é bom vê-se tudo mais bem visto. Aqueles que têm a coragem e que fazem por ajudar os outros, nas ausências mais óbvias e mais difíceis de suportar, acabam por arranjar uma nova infelicidade, que é compreender o pouco que podem.
Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.
Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdamos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e coração de um deus. É na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituámo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por supresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.
Quem é triste e mau julga que há quem seja feliz. Tem inveja dos outros ou acha-se com menos sorte do que eles. De qualquer modo, ao sentir raiva ou desprezo perante quem supõe estar melhor do que ele, aliviando assim a alma, desculpabilizando-se e consolando-se com o azar dele, essa pessoa perde para sempre a companhia dos pares e a compaixão pelos menos felizes. Os maus podem ser mais felizes mas são tristes sozinhos, também.
A tristeza dos outros torna-nos iguais e faz-nos companhia. Também nos aproxima a pena daqueles que parecem ter mais razões para estarem mais tristes do que nós. Para podermos privar dessa proximidade, que não alegra mas ao menos banaliza a nossa tristeza, temos de ser bons.
É fácil ser-se bom porque o coração é estúpido. É fácil ser-se fiel a uma amor, ou leal a uma ideia, ou bom amigo. É tão fácil como estar triste. Em Portugal é mais fácil ainda. A tristeza vê-se melhor. Entra-se num café e pode dizer-se ao empregado desconhecido que nos serve que se está triste. Ou então é ele quem pergunta, ou quem diz. É o melhor país para quem esteja regularmente triste.
Odeio a mania moderna de dizer mal da pena. Cada um diz que não quer que se tenha pena dele. Porquê? Quando eu estou muito triste, como agora, gosto que tenham pena de mim. Ter pena é só uma maneira de dizer "Eu também sou assim". O coração do homem do café é igual ao meu. A pena faz parte do pouco que se pode fazer. Nenhuma tristeza verdadeira se pode "resolver". Como um mal de amor não tem cura, ou a traição de amigo, ou a morte de quem se quis, a única coisa que pode fazer a uma tristeza é acompanhá-la. Acompanhá-la e esperar.
A pena faz parte do pouco que se pode fazer. Num mundo ocupado por ausências, a saudade é a experiência principal. A saudade é mais corriqueira que as bicas que bebemos, mais chata e demorada que o trabalho, tão inescapável e irresolúvel como o envelhecimento. É banal. Dói como uma carga de pancada mas é a coisa mais simples do mundo.
A maneira de reragir à saudade e à tristeza é ter um coração bom e uma cabeça viva. A saudade e a tristeza não são doenças, ou lapsos, ou intervalos, como se diz nos países do Norte. São verdades, condições, coisas do dia a dia, parecidas com apertar os atacadores dos sapatos. É banalizando-as que as acompanhamos. Um sofrimento não anula outro. Mas acompanha-o. Para isto é preciso inteligência e bondade.
Aquilo que nos resta são as pequenas alegrias. No contexto de tamanha tristeza e tanta verdade tornam-se grandes, por serem as únicas que há. Não falo nas alegrias que passam, como passam quase todas as paixões.
Falo das alegrias que se tornam rotinas, com que se conta: comprar revistas, jantar ao balcão, dormir junto ao mar, dizer disparates, beber de mais, rir. Coisas assim. São essas coisas - entre as quais o amor - que não se podem deitar fora sem, pelo menos, morrer primeiro."

Miguel Esteves Cardoso

Sunday, April 16, 2006

Antídoto

My song is love
Love to the loveless shown
And it goes up
You don't have to be alone...

Your heavy heart
Is made of stone
And it's so hard to see you clearly
You don't have to be on your own...

And I'm not gonna take it back
Well I'm not gonna say I don't mean that
You're the target that I'm aiming at
And I get that message home...

My song is love
My song is love, unknown
And I'm on fire for you, clearly
You don't have to be alone
You don't have to be on your own

And I'm not gonna take it back
And I'm not gonna say I don't mean that
You're the target that I'm aiming at
But I'm nothing on my own
Got to get that message home...

And I'm not gonna stand and wait
Not gonna leave it until its much too late
On a platform I'm gonna stand and say
That I'm nothing on my own
And I love you, please come home...

My song is love, is love unknown
And I've got to get that message home...


A Message, Coldplay

Wednesday, April 12, 2006

Deixas em mim...

A noite não tem braços
Que te impeçam de partir,
Nas sombras do meu quarto
Há mil sonhos por cumprir.
Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,
Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.
A estrada ainda é longa,
Cem quilómetros de chão,
Quando a espera não tem fim,
Há distâncias sem perdão.
Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,
Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.
Navegas escondida,
Perdes nas mãos o meu corpo,
Beijas-me um sopro de vida,
Como um barco abraça o porto.
Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Deixas em Mim Tanto de Ti, Pedro Abrunhosa

Monday, April 10, 2006

The end is near











This is the end
My only friend, the end
It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die

Todo o amor do mundo...não foi suficiente

todo o amor do mundo não foi suficiente
porque o amor
o amor não serve de nada.
ficaram só os papéis e a tristeza,
ficou só a amargura e a cinza
dos cigarros e da morte.
os domingos e as noites que passámos
a fazer planos não foram suficientes
e foram demasiados
porque hoje são como sangue no teu rosto,
são como lágrimas.
sei que nos amámos muito
e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,
não irei negar nunca que te amei.
nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo...


Todo o amor do mundo não foi suficiente, José Luis Peixoto / A Naifa

My eyes

And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

I can't take my eyes of you
I just can't take my eyes of you
I can't take my eyes...

And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most...most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial

I can't take my eyes of you
I can't take my eyes of you
I can't take my eyes...

Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?

I can't take my mind off of you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind...
My mind...
my mind...

Until I find somebody new...


The Blower's Daughter, Damien Rice


Feeling lonely



O fim da canção

Chegámos ao fim da canção
E paro um pouco para dormir
É tarde para voltarmos atrás
Já nem há motivo algum para rir

É como ouvir alguém dizer
"Vê nessa procura
Uma razão
Para virar a dor para dentro"
Que é virar o amor para dentro
Falo de um amar para dentro
Que é virar a dor para dentro

Eu vou dizer até me ouvir
A dor chegou para ficar
Eu vou parar quando eu sentir
Não haver motivo algum para negar

É como ouvir alguém dizer
"Vê nessa procura
Uma razão
Para virar a dor para dentro"
Que é virar o amor para dentro
Falo de um amar para dentro
Que é virar a dor para dentro

Chegámos ao fim da canção
E paro um pouco para dormir...

Fim da Canção, Ornatos Violeta

Saturday, April 08, 2006

Pensar ou não pensar

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro

Friday, April 07, 2006

Afinal...

Era eu a convencer-te que gostas de mim,
Tu a convenceres-te que não é bem assim.
Era eu a mostrar-te o meu lado mais puro,
Tu a argumentares os teus inevitáveis.

Eras tu a dançares em pleno dia,
E eu encostado como quem não vê.
Eras tu a falar para esconder a saudade,
E eu a esconder-me do que não se dizia.
Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...
Desviando os olhos por sentir a verdade,
Juravas a certeza da mentira,
Mas sem queimar de mais,
Sem querer extingir o que já se sabia.
Eu fugia do toque como do cheiro,
Por saber que era o fim da roupa vestida,
Que inventara no meio do escuro onde estava,
Por ver o desespero na côr que trazias.
Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...
Era eu a despir-te do que era pequeno,
Tu a puxar-me para um lado mais perto,
Onde se contam histórias que nos atam,
Ao silêncio dos lábios que nos mata.
Eras tu a ficar por não saberes partir,
E eu a rezar para que desaparecesses,
Era eu a rezar para que ficasses,
Tu a ficares enquanto saías.
Não nos tocamos enquanto saías,
Não nos tocamos enquanto saímos,
Não nos tocamos e vamos fugindo,
Porque quebramos como crianças.
Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...
É quase pecado que se deixa.
Quase pecado que se ignora.
Quebramos os dois, Toranja
 

Thursday, April 06, 2006

O amor é uma companhia

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo,
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro



Wednesday, April 05, 2006

O Jogo

Eu, sabendo que te amo,
E como as coisas de amor são difíceis,
Preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Nuno Júdice

Monday, April 03, 2006

Hey...

Here I stand, head in hand
turn my face to the wall
if she´s gone, I can´t go on
feeling two foot small

Everywhere, people stare
Each and every day
I can see them laugh at me
and I hear them say

Hey,
you´ve got to hide your love away

How can I even try?
I can never win
Hearing them, seeing them,
In the state I´m in

How could she
say to me, "love will find a way"?
gather ´round all you clowns
let me hear you say

Hey,
you´ve got to hide your love away ...

You've got to hide your love away, The Beatles







Melancolia










Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

Miguel Torga


Definição














fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.

José Luis Peixoto

Saturday, April 01, 2006

Um amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão.
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus, do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice

Ouvi dizer....

Ouvi dizer que o nosso amor acabou
Pois eu não tive a noção do seu fim
Pelo que eu já tentei
Eu não vou vê-lo em mim
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem
E ao que eu vejo
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi
E eu fiquei com tanto para dar
E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva

E pudesse eu pagar de outra forma

Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã
E eu tinha tantos planos pra depois
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós
Sem tirar das palavras seu cruel sentido
Sobre a razão estar cega
Resta-me apenas uma razão
Um dia vais ser tu
E um homem como tu
Como eu não fui
Um dia vou-te ouvir dizer

E pudesse eu pagar de outra forma
Sei que um dia vais dizer
E pudesse eu pagar de outra forma

A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura
Ora amarga! ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura...

Ouvi dizer, Ornatos Violeta