Monday, November 14, 2005

Probabilidades...

Agostinho da Silva costumava dizer que não há defeitos nem qualidades. Apenas características. É uma visão pouco romântica, é certo, mas talvez acertada. Que outra forma teria para explicar que adore uma mesma característica numa determinada pessoa, e seja insuportável noutra criatura? Mudará de pessoa para pessoa? Uma qualidade em alguém transformar-se-á em defeito noutro alguém? Penso que não. Para responder a esta questão, inventei a minha própria teoria, naturalmente bem mais romântica e afectuosa: como, de certeza, não vamos encontrar a pessoa perfeita (isso da perfeição é incompativel com a natureza humana) a unica solução é então encontrar alguém com caracteristicas (leia-se, defeitos!) que nos dê prazer aturar. E assim sendo, poderá acontecer que não vejamos nem qualidades nem defeitos naqueles que amamos, mas sim e apenas características. A minha mente teimosamente idealista diz-me que isso é possível, mas ainda não tenho a certeza.
Esta prosa não é, contudo, para falar dos defeitos (características? ainda não estou muito convencido) de quem gostamos realmente de verdade. Até porque isso está implícito: gostar de alguém de verdade implica gostar de tudo.... mesmo dos defeitos. E portanto seria preciso outra prosa só para falar do que é isso de gostar de verdade. É preciso acrescentar o de verdade? Gostar de alguém não deverá ser sempre de verdade? Talvez um dia...
Esta prosa é para falar dos defeitos em pessoas que não estamos minimamente dispostos a aturar e que (como já terá percebido quem está a ler, se já entrou no espírito) nunca se tornarão qualidades. A questão das caracteristicas ainda não me convenceu. Principalmente quando existem características como a hipocrisia. Continuo a achar que esta é mesmo um defeito. Não tolero, portanto, a hipocrisia. Será rídiculo categorizar os defeitos, mas não resisto: este é inaturável (uma palavra nova?). Ao contrário dos outros defeitos (verborreia, ostentação -hmmm, este também está "bem" classificado, antipatia, cinismo... a lista é extensa) que se assumem quase imediatamente (nunca dei por mim a pensar se aquele é simpático ou antipático, se fala muito ou se fala pouco), a hipocrisia é calculista, fria, falsa e mascarada, como se ainda não bastasse, de uma simpatia e até bondade quase angelicais. Mas o que me enfurece, ainda que eu tenha escrito que não a tolero, é ter a consciência de que tal é impossível. Não posso ter o poder de tolerar algo que não sei se é real. Não posso decidir quanto à tolerancia sobre algo que só virei a concluir que não deveria ter tolerado, depois de já o ter feito. E é esse absoluto descontrolo sobre o que realmente as pessoas são e pensam que me deixa desconfortável em relação à hipocrisia.
Não há, infelizmente, cura nem antidoto para pessoas hipócritas nem qualquer sinalética para esse tipo de gente. Resta-me a experiencia de já ter conhecido umas poucas pelo caminho, e principalmente a convicção, ainda que os pessimistas afirmem o contrário, de que gente hipócrita continua a ser uma minoria. Resume-se tudo, portanto, a uma questão de probabilidades.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home