Tuesday, January 03, 2006

R.I.P.

A morte embaraça-me. Tento encará-la como algo que faz parte da vida. Mas não tenho conseguido. Há pessoas prá aí que se gabam de tratar a morte como uma coisa normalissima, quase corriqueira, ou que estão mais que preparadas "para quando esse momento vier" dizem elas. É apenas um disfarce. E há disfarces piores e outro melhores. O disfarce mais comum e mais fácil é sempre que alguém morre, encontrar uma qualquer razão que justifique porque foi o outro a morrer e não eu. Se morreu por estar (o por é muito importante) em Beirute, não há problema porque eu estou em Carcavelinhos de Baixo, e portanto, não estou sujeito às condições a que o pobre homem estava. Se morreu por conduzir embriagado, não há problema, porque eu só bebo Água das Pedras (pub) à refeição e portanto, não corro esse risco. Se morreu num estádio com uma facada depois de uma discussão absurda com outro sujeito sobre se seria ou não penalty, também não há problema, porque eu nem sequer vou ao estádio ver futebol e nem tão pouco sei manejar armas brancas (nome tão pacífico para um instrumento tão violento!)
O disfarce vai conseguindo enganar-nos. Até chegar um dia em que morre alguém que simplesmente e à falta de melhor justificação, não merecia morrer e então não conseguimos arranjar nenhuma explicação para que tivesse sido o outro sujeito a morrer e não nós. E a seguir pensamos o que nenhum ser humano gosta de pensar: "podia ser eu..."

Dei por mim a pensar nisto (sim! eu também utilizo este disfarce!) quando soube da morte de um antigo campeão de Rallys, com 34 anos, com um tumor cerebral.
Fiquei duplamente triste. Como entusiasta de corridas de carros, desde sempre me havia habituado a ver o nome Richard Burns. É claro que todos os dias morrem pessoas com a mesma idade e com a mesma doença. Mas este fazia parte daquelas pessoas que não estamos à espera que morram... pelo menos tão cedo... e de uma causa tão injusta. Fiquei também triste pela indiferença com que a comunicação social tratou (ignorou?) esta questão, a contrastar com a altura em que foi campeão Mundial de Rallys em 2001 (sim! há apenas cinco anos!). Mundo cruel e com a memória curta!

O meu disfarce tem uma brecha...
Alguém consegue arranjar-me uma desculpa para esta morte?

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