Adeus
Preâmbulo (Epitáfio?)
Não estou, de todo, nesta fase da poesia. (estou sim de todo...)
Não sei quando estarei. Tenho de estar. Só sei que um dia estarei... E anseio esse dia. Anseio esse dia, de amorfos sentimentos, se é que a palavra sentimento consegue condizer com a palavra amorfos... Anseio esse dia. Tenho saudades de não sentir nada, tenho saudades de não saber o que sinto, tenho saudades de não sofrer com nada, tenho saudades de não esperar nada, tenho saudades, afinal, de não amar. Tenho saudades de não saber o que é isso de sentir saudades. Raios! Tenho saudades de tudo o que nunca pensei voltar a querer ter saudades!
Anseio esse dia como um preso no corredor da morte. Não. Não é nenhuma derradeira amnistia que este preso anseia. Anseia uma morte crua, visceral e inevitável como só a morte consegue ser.
Anseio esse dia para enfim renascer.
Porque para renascer é preciso morrer primeiro.
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade

2 Comments:
É tão triste o poema.O que te aconteceu,para sentires isso?Ou melhor, esse poema condiz com o teu estado de espírito?Desculpa o meu atrevimento!
Tens saudade de não amar...Isso entristece-me!Não há ninguém que ames,lá no teu fundinho,do teu coração?
Morrer para renascer!...Porque queres "morrer"?Sei que é para renascer,eu sei,mas foi assim tão mau?
Vejo que gostas de Eugénio de Andrade.Mas...E se tentasses fazer os teus próprios poemas?Escreves muito bem!
Olha que há sempre algo para dar.Fica sempre Uma luz ,no fundo do coração;é só atiçá-la.Basta querer!
Adeus ,é que nunca...E muito menos palavras gastas...
Obrigada pelo teu comentário.Gostei muito.Tens toda a razão:há guerreiros sim ,mas tentão fazer do Mundo um lugar bem melhor, onde o sonho e o amor possam estar presentes.
Obrigada,volta
Doceando
Smog, desculpe-me a intromissao em seu blog, mas nao poderia deixar de registrar aqui um comentario, li um recado seu no blog da vem sonhar comigo e fiquei extremamente comovido. Pelo que entendi voce se apaixonou por alguem e vivenciou um grande momento , eu tambem estou numa situaçao dessas , me apaixonei por alguem, que que nao poderia me apaixonar pois ja estou casado e para encontrar um local de extravasao abri um blog, ainda estou na fase do coraçao palpitar mas sei que ele tem de parar para que eu possa sobreviver. O blog deixa extravasar as emocoes e nele encontramos pessoas maravilhosas que vivenciam momentos parecidos com os nossos .
Um grande abraço , muito bom ler seus pensamentos.
Joao
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