Tuesday, November 22, 2005

Publicidade enganosa

Nascemos condenados a ultrapassar obstáculos. Alguns de facto, existem, outros não passam de meras imposições sociais. A balança pende para este último. O primeiro obstáculo é, naturalmentem, nascer. Aguentar contraçcões durante o parto (sim, presumo que não seja só a mãe a senti-las. não deve ser nada fácil para o feto), preparar-se para a viagem, sombria e traiçoeira e, se tudo correr bem, estará ultrapassado o primeiro obstáculo. O pobre feto não tem, espero, memória deste primeiro "trauma", mas tal não é também necessário. Enfrentará muitos outros obstáculos pela vida fora, a maior parte deles, recorde-se, meras imposições sociais. Seria fastidioso, enumerá-los todos. Além disso a minha experiencia inexistente como pai, daria origem a muitas imprecisões em termos temporais. Limito-me a registar alguns acontecimentos:a primeira palavra, o primeiro sorriso, o primeiro passo, o primeiro dente, o primeiro dia no infantário etc etc. O que interessa é acontecer alguma coisa que se veja, que se note, que impressione, que faça inveja aos outros. Ninguém regista a primeira vez que uma criança viu um gato pois não? ou um cão? ou uma melga? ou um piolho? Não. Isto não fica bem. Não há vaidade e como tal, para quê registar?
A criança entra depois para a escola primária. A criança sai da escola primária. A criança entra no 2.º ciclo, no 3º ciclo, no secundário. A criança entra na faculdade. A criança sai da faculdade. A criança agora tem de comprar casa, carro e roupa lavada. A criança tem de casar. A criança tem de ter filhos. A criança tem de cuidar dos filhos. A criança tem de por os filhos na faculdade para serem alguém na vida. A criança envelhece. A criança morre.
Vistas assim as coisas, a vida não parece mais que uma corrida desenfreada de obstáculos. Por mim, tento resistir a essa corrente. A vida, tal como nos oferecem vem estampada com todas estas etapas (e mais algumas!) no papel de embrulho. Esqueceram foi de nos dizer que por debaixo desse papel de embrulho está escrito Frágil. Edição limitada e que o realmente interessa no pacote são as pequenas bolas de esferovite (aquelas bolas de plástico cheias de ar, e que não resisto a rebentar, também resultam) que suportam os tombos, as mágoas, as agressões, as desilusões a que esse presente, que nos foi dado à nascença chamado vida está constantemente sujeito.
Nascemos condenados a ultrapassar obstáculos. Excepto a morte.

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