Thursday, December 22, 2005

Música Paraíso

Irrita-me a mania que algumas pessoas tem de dizer que a cultura não é acessivel ao bolso de qualquer um, que a cultura é cara, que os CD's são caros, que os livros caros, os bilhetes de cinema são caros (reparem naqueles que gastam o equivalente a um bilhete de cinema num balofo balde de pipocas)... A cultura está por toda a parte. Basta estar sensivel a ela e permanecermos disponíveis e deixar que nos invada, que nos consuma, que nos arrebata. É claro que há cultura que deve e tem de ser paga. Nesse caso lembrem-se do dinheiro tantas vezes gasto futilmente (situação em que humildemente me incluo) e dêem à cultura uma segunda oportunidade. Ela merece.
Este texto foi retirado de uma publicação gratuita surrupiada de uma stressada grande superficie e não só é de uma beleza quase poética, como mostra como poderia ser a promoção de um espectáculo. De certo seria bem mais eficaz. Porque é impossivel ficar indiferente a esta elegancia com que é descrita a música de Nicole Conte. É lindo!

Podemos perseguir uma nota, seguir-lhe a dança do rítmo enquanto se abandona ao ziguezague no infinito como uma Vespa sobre o asfalto. Podemos segui-la agarrados contra o vento, buscar o próprio sopro que a solta e bebê-la numa esplanada em Roma entre o gelo de um Martini e o calro de um sorriso. E entre um cigarro e outro, se soubermos sentir o preto e o branco do filme dos nossos dias, podemos respirar o swing de uma banda de jazz entregue a si mesma no palco dos sonhos de uma época perdida. Esta é a arte dos melhores músicos que hoje arriscam colocar a música no centro de um mundo que alheio aos meios apenas vê os fins. Outras direcções para a música. Esta é a arte de Nicola Conte, maestro supremo da nova bossa, do jazz no terreno das emoções. Inspirado no cinema, viaja entre plamos de uma época onde o jazz se dançava, e a música se ouvia para resgatar a poesia das notas e o equilibrio dos corpos, como se não houvesse hoje. Apenas um profundo desejo de beleza que em cada compasso leva mais longe essa fuga que só a música e o cinema permitem.
Engana-nos a sua verdadeira devoção à arte do jazz, faz-nos acreditar que é livre e navega num mundo novo, mas sob a lua cheia duma música assim bela veêm-se as marcas de amor tão velha como a de um romance de areia à beira do mediterrâneo.
Nicola Conte seduz sem querer e parte sem aviso, mas a sua música respira a eternidade dos mestres que o inspiram na grande noite do jazz. Miles, Blakey, Morricone, Jobim, Godard passeiam e fumam num filme dirigido pelos nosso próprios sentidos em busca de novas direcções. Não é música de dança, mas vem de um dj, não é música clássica, mas tem a classe da grande escrita de um verdadeiro aluno de Conservatório. É jazz romântico, vem do passado para fazer amor com o presente. E vem ao encontro de si.

1 Comments:

Blogger Mauro Pereira da Silva said...

Realmente cultura é acessivel. Gasta-se muito mais em esmalte e cigarro, ou cerveja.
Nunca as pessoas tiveram tanto acesso aos meios de comunicação (jornais, internet, livros, revistas, etc) e nunca foram tão burras. Ou seja, devemos repensar o que seja cultura. Aliás, eu diria que assim como a inteligencia, existem várias niveis de cultura, aglumas completamente inuteis.

12:47 am  

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